Floresta de igapo do Rio Negro

Floresta de igapo do Rio Negro

sábado, 11 de junho de 2011

Uma reflexao inspirada pela batalha campal do codigo florestal

Este texto foi escrito pelo Mario Cohn-Haft e compartilhado por e-mail com um grupo de colegas. vai reproduzido aqui com autorizacao do autor.

Polemica, pontos de vista extremos e opostos, divisao em preto e branco, preconceito, assassinato e guerra (como a forma mais extrema dessa polarizacao) sao, na minha opiniao, exemplos de falha da inteligencia humana. sao o ultimo recurso qdo o dialogo nao funciona mais. no caso do codigo florestal, por exemplo, acredito q gente bem informada entende a importancia tanto de empregos e de agricultura, como de ecossistemas naturais, biodiversidade e de agua limpa, e nao ve essas coisas como excludentes e sim como parte do bem estar humano como um todo. o que rola no campo politico eh, diria, anti-intelectual (de ambos os lados).

gritaria, passeatas e demonstracoes sao instrumentos para influenciar politica, nao conhecimento. e politicas sao instrumentos de mudanca de sociedade no curto prazo (no braco). mudancas dessa natureza, nao acompanhadas de concientizao e disseminacao do conhecimento, tendem a aprofundar richas e polarizar extremos, levando a um ping-pong ao longo do tempo entre politicas associadas a situacao e oposicao, cujo principal trabalho se torna desfazer a obra do governo anterior. um exemplo bastante doentio desse fenomeno, eu diria, eh o meu pais de origem--os estados unidos: 2 partidos, 2 racas, 2 paises (nosso e os outros), 2 moralidades (a certa e a errada), e uma metade do povo constantemente e garantidamente (e as vezes doentiamente) insatisfeita.

nao acredito q seja por falta de forca politica q o "nosso lado" estah "perdendo". acho que eh por falta de sucesso em disseminar nosso conhecimento. nos educadores, pesquisadores, intelectuais representamos a classe da sociedade mais investida na ideia de que o conhecimento eh o que muda comportamento. se nos nao conseguimos avancar a sociedade atraves do uso do conhecimento em processos racionais, entao duvido q outro setor da sociedade vai. se o povo nao entende ou aprecia os nossos argumentos, eh culpa nossa, pois eh o nosso trabalho fazer o conhecimento ser inteligivel.

o que concluir disso? devemos todos publicar mais? provavelmente. publicar em revistas cientificas revisadas por pares eh importante? certamente. mas ta na cara que nao eh o suficiente. acredito q cada um faz sua maior contribuicao aa sociedade fazendo justamente aquilo que faz bem, que faz com amor e conviccao. a gente ensina melhor atraves do exemplo, e a alegria contagia. nao somos convincentes falando do final dos tempos, da destruicao geral, com nosso portugues perfeito, sentados nos nossos gabinetes confortaveis, comendo saladas de rucula com pesto. estamos chorando de barriga cheia. pois somos sim uma classe privilegiada. (mesmo qdo ainda nao privilegiados pelo bom emprego, temos o privilegio de fazer aquilo q gosta e acredita.) e nao somos eficientes pregando para nos mesmos sobre os assuntos q ja entendemos e lamentando a ignorancia alheia. essa ignorancia, ela EH o nosso trabalho!

essa mensagem eh um pedido de pararmos de choramingar, pararmos de fechar as nossas caras e chamar o outro de "inimigo" ou "ignorante", pararmos de cultivar e curtir a nossa impotencia. que facamos o que melhor fazemos: entender o mundo (ou um peculiar cantinho especifico dele). mas que facamos muito mais q isso: que mostremos para os outros, a cada oportunidade, o que sabemos, e a satisfacao q isso nos traz e q ta a alcance de todos. o prazer do conhecimento, a emocao da descoberta, a saude da curiosidade, a conquista do "ta vendo?", a harmonia da coerencia, o barato do "eh mesmo!" mais um privilegio da nossa classe: estudar e ensinar eh um ato q executamos por puro egoismo (prazer individual nosso) e que tem o impacto da maior generosidade.

sejamos fieis a nossa profissao, a nossa preferencia, a nossa competencia e habilidade. assim, acredito q o mundo melhora mesmo!

abracos, mario